A Tragédia da Rua das Flores

Dir-se-ia que as ruas das Flores são pródigas em tragédias.

Em 1890 houve um crime na rua desse nome do Porto. Por sua vez Eça de Queiroz escreveu em 1878 um romance a que chamou “A Tragédia da Rua das Flores”. Aqui vou falar doutra ainda, a primeira tragédia.

Foi no dia 10 de Maio de 1871 que a sociedade lisboeta recebeu com espanto e horror a a notícia de um drama passional desenrolado na Rua das Flores nº 101, em Lisboa, residência de José Cardoso Vieira de Castro, conhecido parlamentar e escritor, e de sua mulher, uma jovem brasileira oriunda de uma família abastada do Rio de Janeiro.

Não vou aqui repetir a história que durante vários meses apaixonou a opinião pública nacional. Vasco Pulido Valente escreveu sobre o caso um livro brilhante a que muito acertadamente chamou “Glória”.

Acontece que, ao vasculhar nos papéis de família, constatei que meu bisavô, Tomás Mendes Norton (1839 – 1920), era amigo de Vieira de Castro, contemporâneo em Coimbra e um dos seus muitos admiradores.

Em 1859 partilhavam a mesma casa naquela cidade. Mais velho que Tomás, Vieira de Castro era já nessa altura famoso. Acabava de voltar a Coimbra depois de em 1857 ter sido suspenso temporariamente da Universidade.

Eis como Tomás contou esse primeiro incidente em carta para o Pai: “Em 1857 o Vieira descompôs os lentes da Faculdade de Direito na Sala dos Capelos pela injustiça que praticavam com o Dr. Augusto Barjona, reprovando-o no concurso que tinha acabado. Em virtude da linguagem de Vieira, o Dr. Barjona foi aprovado em nova votação a que se procedeu

Na verdade Vieira aproveitou o espontâneo movimento de repulsa que se gerou contra aquela decisão iníqua, para se auto promover. O seu nome apareceu nos jornais. Meteu-se a política, a oposição apoiou-o. Entusiasmado com o seu êxito acabou por exceder-se. A Universidade espicaçada até ao limite reagiu e, como escreveu o seu amigo Tomás “o Vieira foi riscado por dois anos”.

De volta a Coimbra em finais de 1858, fundou, numa nova tentativa de afirmação pessoal, o “Atheneu”, revista politico-literária. Conseguiu a colaboração de Camilo, já então uma celebridade, e a boa vontade de João de Deus e de António Feliciano de Castilho. O meu Bisavô colaborou com entusiasmo no projecto do amigo e companheiro de casa, tentando obter assinaturas e promovendo a revista junto da família e de amigos em Viana e Ponte do Lima.

Diga-me” – preguntava ao Pai – “que impressão produziu o Atheneu, e se julga que a linguagem seja demasiado livre, e o estilo demasiado elevado; são essas as censuras que se lhe têm dirigido nos jornais”. Segundo ele, Vieira continuava no “Atheneu” a fustigar as hierarquias académicas, “dando muito sofrivelmente a sua descompostura a esta gente, apresentando-a como ela é”.

Mas a revista não vingou o suficiente para alimentar o ego insaciável do seu fundador. Era-lhe necessário agitar as águas. Resolveu então publicar num jornal do Porto um comentário, não assinado, a um discurso do Reitor da Universidade. Oiçamos Tomás Mendes Norton: “apareceu um folhetim anónimo em “O Nacional” em que se mostrava que o Reitor escrevia sem gramática. Espalhou-se com falsidade que esse artigo era do Vieira. O Reitor, desde que lhe chegou aos ouvidos que o folhetim do jornal era feito por ele ofendeu-se no seu amor-próprio e aproveitou o pretexto das meias e do Guarda-Mor para riscá-lo perpetuamente”. O Guarda-Mor da Polícia Académica tinha implicado com ele por as meias e os calções que vestia não cumprirem a etiqueta, e Vieira de Castro, com altivez e sempre segundo o meu Bisavô, “mandou-o aonde qualquer outro o mandaria”, criando a gota de água disciplinar.

José Cardoso Vieira de Castro

A expulsão definitiva de Vieira de Castro levantou um clamor na Universidade, em Coimbra e, através dos jornais, no país. Tomás Mendes Norton não só assinou o abaixo-assinado que circulava pedindo indulto para o estudante castigado, como instou acaloradamente o Pai para que alertasse sobre aquela causa os seus correligionários políticos: ” Por uma culpa tão pequena o Fontes (Pereira de Melo) não deve consentir que o Vieira seja riscado e se o Pai e o Tio (Tomás Norton) pedirem com instância, o Reitor recebe uma bofetada, o Vieira fica salvo e volta aos braços dos seus amigos. Dou e darei ao Pai todas as informações precisas e verdadeiras. O Pai comentará ao Fontes como bem lhe aprouver”.

Além destas diligências Tomás também escreveu um artigo para “O Nacional”, do Porto, com o dramático título “Já não é nosso”. Porém, desde aí, refreou os seus ânimos a acreditar nas palavras que escreveu ao Pai: “não me meterei mais neste negócio, pois assim mo manda a obediência a meus Pais, e a sua reflexão maior que a minha, mas quis aproveitar esta ocasião, como o último arranco do moribundo para soltar alguns gemidos contra estes imbecis que nos pretendem ensinar”. Notava-se neste final a influência da grandiloquente retórica do seu amigo Vieira. 

Entretanto o assunto não morreu, a celeuma foi durando, como restolho ardido que nunca se apaga, figurando Vieira como heroica vítima da luta contra numa suposta nova inquisição conimbricense. Finalmente amnistiado, voltou a Coimbra em 1863 para finalizar o 5º ano do Curso de Direito.

Já Tomás Mendes Norton deixara Coimbra. Tinha casado e tratava então de administrar a riqueza fundiária da sua mulher, correndo as suas vidas em separado.

Vieira continuava nas bocas do mundo. Em 1865 entrava com espalhafato no Parlamento, representando os eleitores de Fafe, satisfeitos por terem um deputado que todo o Portugal conhecia.

Durante o tempo que mediou até 1870 os dois amigos limitaram-se a trocar duas ou três cartas sobre um pedido de Tomás a favor de uma tal Abade de Anha que queria ver como prior de Santa Maria Maior em Viana.

Entretanto Vieira como era de esperar, revelara-se um tribuno virulento e implacável. As suas intervenções no Parlamento eram aguardadas com expectativa e seguidas com entusiasmo. Mas a violência veio juntar inimigos aos que já tinha. Perdeu apoios políticos e achando-se sem meios – viver, com visibilidade, em Lisboa era caro – começou a pensar no Brasil. Para lá partiu em finais de 1866 com a fama debaixo de um braço e o livro dos seus “Discursos” do outro. Se não voltasse rico abandonava a política, dizia.

Claudina Gonçalves Guimarães e Vieira de Castro

Voltou no ano seguinte casado com D. Claudina Gonçalves Guimarães, de 17 anos, filha de um abastado capitalista brasileiro natural de Fafe. Não restam dúvidas de que os dotes de Vieira seduziram a vaidade do Pai mas não o coração da filha.

Quem quiser conhecer mais detalhes da previsível sucessão de acontecimentos pode obtê-los com proveito no livro acima referido.

Harmonia aparente

Nós saltamos para o fatídico fim-de-semana de 7 e 8 de Maio de 1871.

Ao voltar a casa naquele sábado Vieira de Castro surpreendeu Claudina a escrever uma carta de que suspeitou. Com razão, pois era dirigida ao seu amante, um parente de Almeida Garret. Passou-se um dia, durante o qual o marido ofendido aparentou fazer uma vida normal. Contudo na madrugada seguinte Vieira dirigiu-se ao quarto de Claudina sem fazer ruído. Levava na mão um frasco de clorofórmio comprado horas antes. Pensou que o efeito seria imediato mas Claudina acordou, resistiu e lutou. Vieira desesperado, agrediu-a brutalmente e finalmente estrangulou-a. Deixou o corpo estendido em cima da cama. Passariam mais de vinte e quatro horas antes que se entregasse à polícia.

Dias depois, por carta, Tomás trocava impressões com o Pai sobre o sucedido.

Li as suas reflexões a respeito do Vieira de Castro. Como amigo dele lastimo-o. A mulher recebeu o castigo das suas acções. Os remorsos e justiça amargurar-lhe hão os dias da vida pela demasiada confiança que depositou nela e nos seus falsos amigos. A sociedade não se rirá dele. Deus é Pai de misericórdia e chamará a si a infeliz que teve o castigo na terra.

Como é possível – pensamos hoje – que um homem ilustrado, apreciador de Arte, conhecedor de História, bacharel em Matemática pronunciasse estas palavras?

Meu bisavô não estava sozinho. Muitos pensavam como ele. Faziam parte de uma nova aristocracia, nobilitada pelos estudos, ungida pela ciência. Era o espírito da época, que estimulava as ambições e sustentava os egos, ainda que transbordantes e estéreis como o de Vieira de Castro.

A própria lei protegia nestes casos, o assassino, caso cometesse o acto num assomo de loucura passional.

Tal não se provou, antes pelo contrário, a premeditação foi evidente. Vieira foi condenado a dez anos de degredo em África em alternativa a cinco de prisão maior celular.

Tomás Mendes Norton contudo, acreditava que os altos méritos do amigo haviam de obrigar à comutação daquela pena, já de si levíssima segundo os critérios actuais. Eis o seu comentário em carta de 6 de Dezembro de 1870: “O Vieira de Castro é um infeliz que merece a consideração de todas as pessoas, que souberem o que ele valia pelo seu talento, e pela independência do seu carácter, e que tinha em muito a honra e a dignidade; se cometeu um crime que confessou, e que a lei puniu com cinco anos de prisão celular, o poder moderador há-de comutar-lhe a pena, e Deus há-de permitir que o homem a quem ele concedeu uma elevada inteligência não morra obscuro e esquecido numa prisão”.

*

Os dois amigos corresponderam-se quando Vieira na prisão aguardava o seu destino definitivo, na sequência de recurso. Tomás ajudou-o difundindo “A Consciência”, opúsculo publicado então, cujo conteúdo o condenado lhe explicava em carta de 6 de Agosto de 1871.

Não, eu não tenho fel nem desespero; assim o verás no meu opúsculo. … Nesse pequeno livro o que eu quis sobretudo foi dizer a estes infames que o que eu fiz não impede que o meu coração viva todo cheio da memória dela.”

Quem eram esses infames?

Eram os que não entendiam que o seu brilho justificasse compaixão, os que se chocaram com a frieza e premeditação com que agira e os que julgaram os seus actos por um prisma moral mais moderno.

Houve uma manifestação de senhoras junto à prisão do Limoeiro. E ao ler o primeiro volume das Farpas então publicado, Vieira entendeu que, ao amesquinhar a sociedade portuguesa de então, Eça de Queiroz estava indirectamente a reduzi-lo a uma pequenez insustentável.  

Hão-de afinal entender”, continuava na carta para o amigo, num confuso labirinto auto justificativo, “que os criminosos do meu delicto, só o podem ser os que amaram de um amor sem limites. Há 15 meses que não vivo senão de um sentimento, d’uma idolatria: da esperança de que no céu, se o há, chore por mim aquela por quem eu choro, e que de lá me contemplem e me compreendam no que sou e no que fui.”

Carta de Vieira de Castro maltratada pelo tempo

Mas a sua pena não foi comutada antes aumentada no Supremo para 15 anos de degredo.

Nas vésperas de partir, a 2 de Setembro de 1871, Vieira despedia-se do amigo:

Adeus. Parto no dia 5. Vais na minha alma. Se por lá me colher a morte, estarás com as minhas derradeiras memórias.

Parto sereno. Deus está comigo.

Sê feliz, meu filho!” – (Não deixava de continuar a marcar a sua superioridade ) – “É o voto de um grande desgraçado. Dizem que são os melhores no céu!

Vieira não estava apenas sereno. Estava conformado. Aquelas palavras sombrias e cheias de maus presságios eram as de um homem vencido, vergado pelo destino, um desgraçado. Perdido para sempre o brilho e a glória terrenas, o ateu, o maçon, entregava-se na mão daquele a quem por conveniência tinha em tempos renegado.

A carta só chegou à mão de Tomás ao fim do dia 4. Apenas por telégrafo e no dia seguinte poderia mandar umas palavras de despedida, na esperança que chegassem às mãos do amigo antes de partir para o degredo. A sua admiração por Vieira de Castro estava intacta, queria despedir-se em conformidade. Às oito da manhã do dia 5 correu ao telégrafo e ditou o seguinte telegrama: “Coragem! Cuidado com a saúde. Os leões respeitarão a Daniel. Deus te acompanhe. Adeus

Vieira de Castro morreu em Luanda a 5 de Outubro de 1872. Ao receber a notícia Tomás Mendes Norton dedicou-lhe estas últimas palavras:

Se é verdade a notícia do falecimento do pobre Vieira de Castro ficam fartos os algozes que o sacrificaram não ao castigo do crime, mas à vingança das feridas que a pena e palavra de Vieira de Castro abriram nos medíocres e tratantes do país, que como lobos esfaimados se deitaram a ele logo que o viram na desgraça, ou seguindo o exemplo do burro da fábula acometeram o leão apenas a decrepitude o fez cair no bosque.

Grande talento e grande coração, a terra lhe seja leve e a posteridade lhe perdõe.

Sinto muito a morte dele

Lisboa, 24 de Junho de 2019

2 comments

  1. Caro Tio José, Obrigado por partilhar esta e outras fantásticas histórias. Esta é bastante profunda e descreve outros tempos e outras realidades com pormenores interessantíssimos. Grande abraço, Tota

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