TIEPOLO e a revolução

Não é invulgar um acto de destruição, casual ou premeditado, proporcionar descobertas artísticas, arqueológicas e outras. Aqui perto de Lisboa a exploração de uma pedreira pôs a descoberto pegadas de dinossauros. Quantos tesouros de moedas não se encontraram em demolições. Pensemos ainda nas pinturas, que por reaproveitamento de uma tela, se escondem debaixo de trabalhos menores que é necessário destruir.

Aqui falarei de um caso ainda mais rebuscado.

No dia 14 de Maio 1915 eclodiu em Lisboa uma das muitas revoluções que caracterizaram a agitada vida da 1ª República. Foi uma luta rápida, algumas horas apenas, mas violenta, causando mais baixas que o “5 de Outubro”. A revolta abriu caminho para a hegemonia do Partido Republicano Português de Afonso Costa, que activamente a preparara com campanhas de imprensa e agitação clandestina. Outra consequência foi a participação de Portugal na I Guerra Mundial concretizada meses depois.

 Chamaram-lhe alguns a revolução dos marinheiros, ainda que estes tivessem participado em quase todas as outras. Mas a verdade é que os primeiros tiros vieram de navios amotinados no Tejo. Um aceso duelo de artilharia travou-se entre o couraçado “Vasco da Gama” e uma bateria fiel ao governo instalada no Alto de Santa Catarina.

Eduardo Pinto Basto (Pai)

A dois passos, na rua do mesmo nome, num bonito palácio do século XVIII que ainda ali se pode apreciar, vivia Eduardo Ferreira Pinto Basto (1838 – 1916), representante de uma conhecida família de empresários. Numa nota escrita quatro anos depois, o seu filho Eduardo recordou o que então se passou naquela casa:

“Na revolução de 14 de Maio entrou ali uma granada dum navio de guerra. Não rebentou, mas os destroços das paredes e a deslocação do ar mataram o José Ribeiro da Cunha que na ocasião estava na sala”.

Esta trágica morte foi certamente o que mais impressionou a sociedade lisboeta de então, mas hoje e aqui, o leitor perguntará com toda a legitimidade, que lhe interessa este incidente?

A “Ilustração Portuguesa” publicou esta foto em que vê à direita a residência de Eduardo Pinto Basto com a janela meio destruída pelo impacto da granada

Foi a parte da destruição.

Agora vamos à descoberta, retomando a leitura da nota de Eduardo Pinto Basto (1869 -1944), para saber que mais estragos provocou a granada do “Vasco da Gama”:

“Escangalhou e mutilou muita mobília, bibelots e quadros”- escreveu, e referindo-se a estes continuou – “pertenciam a meu Pai e nas partilhas que fizemos entre irmãos em Fevereiro de 1916 fiquei eu com eles. Nem eu nem nenhum dos meus irmãos sabiam que os quadros tivessem algum valor artístico. Suponho que meu Pai tão pouco o sabia pois nunca lhe ouvi qualquer referência a eles. ……. Desde petiz estes quadros tiveram sempre para mim um encanto especial e por isso os escolhi nas partilhas, mas nessa ocasião supunha-os cópias de quadros bons mas sem valor artístico”.

Apesar disso Pinto Basto achou por bem mandar restaurar as duas pinturas que tinham sofrido danos:

“Dois destes esbocetos ficaram com uns rasgões, o Enterro do Senhor e o Rapto (ou Triunfo ?) de Amphitrite. Nunca foram restaurados até que em Julho de 1919 mandei estes dois ao Luciano Freire para os restaurar e foi lá que o Dr. José Figueiredo, Director do Museu de Arte Antiga, os viu pela primeira vez. Foi isto que originou a sua proposta para comprar o Enterro do Senhor para o mesmo Museu. Proposta que não aceitei. Era de 600$00!”

Apesar de não lhe interessar a oferta, terá então começado a desconfiar que os quadros sempre tinham algum valor artístico, o que brevemente veio a comprovar:

 “Em 12 de Outubro de 1822 estive em Cascais conversando com o pintor Carlos Bonvalot sobre estes esbocetos. Ele tinha regressado havia um mês de Paris e Itália onde durante seis anos esteve com os seus estudos de pintura, depois de concurso em Lisboa, por conta do Estado. Tanto em Madrid como em Paris e principalmente em Itália viu muitos quadros dos dois Tiepolo e assegurou-me que a seu ver estes meus esbocetos são de Tiepolo Pai (João Baptista). Disse-me mais, que assim o seu valor actual em Paris pode regular por uns 150 a 200.000 Francos cada um, visto o J.B. Tiepolo ser actualmente o pintor antigo que mais em moda está”.

Tiepolo e o filho Domenico pintados pelo próprio num fresco da Wurzburg Residence, Alemanha

Eduardo Pinto Basto voltou a falar com José de Figueiredo, como anotou, em 24 de Março de 1924: “Disse-me não concordar com os valores mencionados acima. Na sua opinião os valores aproximados são: Enterro, 80.000 Francos, Fuga para o Egipto, 70.000, Tempo e Vénus, 50.000 e Triunfo de Amphitrite, 20.000 Francos”.

Depois desta conversa um silêncio quase completo envolveu os quadros e a sua autoria. O Estado arrolou os quadros em 1939, mas o grande público desconhecia a sua existência, ainda que a partir de 1946 já se pudesse apreciar “A fuga para o Egipto” que a família oferecera ao MNAA.

A fuga para o Egipto

Só em finais de 2007 “O Enterro do Senhor” saltou para as primeiras páginas dos jornais. Estava iminente a sua venda em leilão, com uma base de 1.500.000 euros, coisa nunca vista em Portugal. Era ainda assim inferior à avaliação dos peritos londrinos (2.200.000 Euros/1.500.000 Libras) mas foi o valor negociado, após longas diligências da proprietária, para que o Estado português o pudesse comprar, como comprou em leilão no dia 29 de Novembro daquele ano, encontrando-se desde então exposto no Museu Nacional de Arte Antiga.

O Veneziano Gianbattista Tiepolo (1696 – 1770), foi um dos maiores pintores italianos da sua época e de sempre. Este quadro, pintado em Madrid onde o artista viveu e trabalhou os últimos anos de vida, é considerado um dos seus mais impressionantes trabalhos, em que alguns veem a antecipação da própria morte do autor que pouco depois se verificaria.

O Enterro do Senhor

“O Enterro do Senhor”, de esboceto “sem valor artístico”, acabou por ser uma das obras de Tiepolo a atingir valores mais elevados numa venda em leilão.

Que teria acontecido se aquela granada não tivesse falhado o alvo?

In Memoriam de C.P.B.

Lisboa, 18 de Março de 2019

NOTA – Depois de publicado este artigo chegou-me por pessoa  amiga a informação de que a residência de Eduardo Pinto Basto foi no nº 16 da Rua de Santa Catarina e não a que eu indiquei na reprodução da Ilustração Portuguesa. Aqui junto uma fotografia actual onde se vê em primeiro plano a casa onde estiveram os quadros de Tiepolo e ao fundo aquela que eu erradamente considerei como sendo a da família Pinto Basto. Não foi apenas o navio “Vasco da Gama” que falhou a pontaria …

5 comments

  1. Lembro-me do palácio, a minha tia Gena vivia lá em solteira, mas não sabia da história.
    Granadas de artilharia por rebentar, é como ganhar a lotaria, e foi de facto o que veio a acontecer.
    Fantástico.

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